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As palavras têm ossos

Parte II · Capítulo 9

Quando não há parentes

Mais longe do que você imagina

Antes de falar das línguas que não são parentes do português, vale a pena perceber até onde chegam as que são. Olhe esta tabela:

portuguêsespanholpersa (Irã)sânscrito (Índia antiga)russo
pai, padrepadrepedarpitṛ—
mãemadremādarmātṛmat'
trêstres—tritri
noitenoche——noch'
novonuevo——novyj

O persa é falado a milhares de quilômetros do Brasil. E, no entanto, a palavra dele para pai tem exatamente o mesmo esqueleto que o seu padre: p · d · r. A palavra para mãe tem o mesmo esqueleto que madre: m · d · r. Lembra do capítulo 1? O seu pai e o seu padre são a mesma palavra latina, patrem; o pai gastou o osso no caminho até ficar só com o p, e a sua mãe ficou só com o m de mātrem. O persa, não: guardou a consoante do meio. Isso não é acaso nem empréstimo. É herança: o persa, o sânscrito, o russo, o espanhol e o português são ramos da mesma árvore indo-europeia.

Isso quer dizer que o método deste manual não acaba no espanhol e no inglês. Ele chega, com mais esforço, ao russo, ao híndi, ao persa. Quanto mais longe está o ramo, menos coderivados existem e mais gastos eles estão, mas o mapa continua sendo o mesmo.

A borda do mapa

Agora sim: o que acontece com o náhuatl, o árabe, o japonês, o chinês, o maia, o tupi? Nenhum desses idiomas pertence à família indo-europeia. Cada um pertence a outra família, com sua própria história de milhares de anos.

A endolinguística chama de macrossistema cada uma dessas grandes famílias vista como um sistema. O indo-europeu é um macrossistema. O semítico (ao qual pertencem o árabe e o hebraico) é outro. O uto-asteca (ao qual pertence o náhuatl) é outro. O sino-tibetano (ao qual pertence o chinês) é outro. E o tupi, a língua que deu ao português palavras como maracujá, pertence a mais outro.

E há uma regra que não se quebra: os macrossistemas não se misturam. Não se compara um código do português com um do árabe como se fossem da mesma língua, porque não são. Há duas razões.

A primeira é a história. Entre o português e o árabe não há coderivados de herança. Se você encontrar uma palavra árabe parecida com uma portuguesa, ou é um empréstimo (como azeite ou almofada, que você vai ver daqui a pouco), ou é uma coincidência sem história comum: o que no capítulo 12 você vai chamar de convergência. Parentesco de herança não há.

A segunda razão é mais profunda. No capítulo 3 eu disse a você que as classes são de uma família de línguas: a região da boca é a mesma no mundo inteiro, mas a sensação que um grupo de sons produz, e o jeito como os sons se agrupam, pode mudar de um macrossistema para outro. Quando neste programa de pesquisa se mediu se o campo de sentido de um código indo-europeu aparece também em outras famílias, coincidiu muito poucas vezes: menos de uma em cada dez. O que se parece de fato entre as famílias é algo mais básico: que as línguas organizam o sentido com padrões de consoantes. O como, cada família faz do seu jeito.

Empréstimos que cruzaram a borda

As palavras, porém, atravessam a borda do mapa, mesmo quando as línguas não são parentes. Elas viajam como empréstimos, e o português está cheio deles.

O árabe deixou muitos na sua casa. Um está na cozinha: azeite, do árabe az-zayt. Outro está no sofá: almofada, do árabe al-miḵadda. Olhe o começo das duas palavras árabes: az- e al-. É o artigo árabe, “o”, que viajou grudado no nome, e que diante de certos sons, como o z, soa az-. Na sua boca, aliás, o l de almofada virou u, como todo l no fim de sílaba no Brasil: a palavra árabe chegou e se adaptou ao seu sotaque, como tudo que chega.

São empréstimos, não coderivados. Ligam o português ao árabe por uma estrada, não por uma árvore genealógica.

O que viaja: o jeito de olhar

Então o manual não serve para esses idiomas? Serve, mas de outra forma. O que não viaja são os códigos concretos e seus campos. O que viaja é o jeito de olhar: procurar o esqueleto, perguntar o que é raiz e o que é acréscimo, suspeitar que atrás de uma lista de palavras há uma ordem, e procurar essa ordem dentro do sistema do idioma novo, não no seu.

Vou dar a você alguns exemplos.

O árabe: uma língua de esqueletos

O árabe é o melhor exemplo de que a ideia de esqueleto não é invenção deste manual. Em árabe, muitas palavras se constroem a partir de uma raiz de três consoantes, e o significado se modula pondo vogais e acréscimos em volta. Olhe a raiz k-t-b, que tem a ver com escrever:

palavra árabeo que quer dizercomo se constrói
katabaescreveua raiz com as vogais a-a-a
kātibescritor, quem escrevea raiz no molde de quem faz a ação
kitāblivroa raiz em outro molde
maktabescritório, escrivaninha: o lugar onde se escrevema- + a raiz: molde de lugar
maktababiblioteca, livrariao lugar de escrever, com outra terminação

Todas levam k · t · b na mesma ordem. As vogais e o ma- do começo não fazem parte da raiz: são moldes, peças de gramática, e cada molde diz alguma coisa (quem faz, o lugar onde se faz). Quem aprende árabe aprende logo a ver as três consoantes por baixo, e cada raiz nova abre para ele uma família inteira de palavras.

A raiz árabe k-t-b e cinco palavras que a carregam k · t · b katabaele escreveu kātibescritor kitāblivro maktabescritório maktababiblioteca
Uma raiz árabe de três consoantes e cinco das suas palavras. As vogais e o ma- são moldes de gramática.

É por isso que o árabe e o hebraico se escrevem sobretudo com consoantes, como você viu no capítulo 2. Para quem fala a língua, é o esqueleto que carrega o sentido, e as vogais ficam por conta da gramática.

Isso quer dizer que k · t · b tem algo a ver com alguma palavra portuguesa com essas consoantes? Não. O árabe é outro macrossistema. O que você leva do árabe não é um código, e sim a confirmação de que olhar o osso funciona também ali, com os ossos daquele sistema.

O náhuatl: o que chegou pelo espanhol

O náhuatl, a língua dos astecas, não é parente nem do português nem do espanhol. Mas vive ao lado do espanhol há quinhentos anos e, pelo espanhol, deixou um presente na sua cozinha. Olhe:

náhuatlespanholportuguês
tomatltomatetomate
āhuacatlaguacateabacate
chocolātlchocolatechocolate
coyotlcoyotecoiote

São empréstimos, e fizeram uma viagem dupla: do náhuatl para o espanhol, e do espanhol para o português. Olhe o final. As palavras em náhuatl terminam em -tl; as espanholas terminam em -te. Não é acaso: -tl é uma terminação muito frequente dos substantivos em náhuatl, e o espanhol, que não tem esse som no fim das palavras, adaptou-a sempre do mesmo jeito. É uma regra de empréstimo: uma correspondência, como as do capítulo 6, só que entre línguas que não são parentes. O português recebeu as palavras já com -te, e as guardou assim. E na sua boca elas ganharam mais uma camada: com o sotaque do Brasil, esse -te final soa tchi (capítulo 2).

Se um dia você estudar náhuatl, vale saber que esse -tl não é parte da raiz: é um acréscimo, mais ou menos como o -s do plural em português. Toma-, āhuaca-, chocolā- são o que sobra quando você o tira. E a partir daí o que você tem que aprender são as estruturas do náhuatl, de dentro do náhuatl.

O tupi: o que ficou em casa

O náhuatl é o vizinho da casa do espanhol. O seu vizinho é outro: o tupi. Desde a chegada dos portugueses, o tupi viveu lado a lado com o português, e deixou muitas palavras, entre elas nomes de bichos e de frutas de uma terra que os europeus não conheciam.

tupiportuguês
marakuîámaracujá

De novo: são empréstimos, não coderivados. O tupi não é parente do português. Mas repare, no exercício abaixo, como os esqueletos costumam chegar quase inteiros. Quando uma palavra atravessa de um macrossistema para outro, ela se adapta aos sons da língua que a recebe, mas o osso muitas vezes passa.

E aqui vai uma lição de honestidade, que vale para este livro inteiro. Você vai ouvir muitas vezes que pipoca vem do tupi, e talvez também que abacaxi vem. Pode ser. Mas a origem das duas é incerta: no caso de pipoca, a palavra tupi que supostamente estaria na origem não aparece nos registros antigos da língua. Repetir uma etimologia muitas vezes não a torna verdadeira. Quando a história de uma palavra não está documentada, o certo é dizer “não se sabe”, e não afirmar mais do que se sabe.

Aprender um sistema por dentro

Quando não há coderivados que sirvam de âncora, o trabalho muda de forma. Já não se trata de reconhecer as suas palavras com outro sotaque. Trata-se de aprender como o sistema pensa: como ele constrói as palavras, que partes são raiz e que partes são molde, que sons ele agrupa, que distinções importam para ele. No árabe, as raízes de três consoantes e os moldes. No chinês, o tom, que faz parte da palavra (você vai ver isso no próximo capítulo). No náhuatl, as terminações e o costume de juntar raízes para fazer palavras compridas.

Essas estruturas também se descobrem estudando os códigos desse sistema: seus esqueletos, suas raízes, suas repetições. Mas se descobrem dentro dele.

E aqui há uma pergunta que não tem resposta fácil, e que eu deixo aberta para você. Quando alguém que fala português estuda como “pensa” uma língua de outro macrossistema, como sabe que está descobrindo algo dessa língua, e não projetando nela o seu próprio jeito de pensar? Decifrar o pensamento de outro povo e pôr o seu por cima se parecem demais. A única coisa que ajuda é a humildade: perguntar a quem fala essa língua desde criança, comparar, e não confundir o que parece a você com o que é.

Na Parte III deixamos por um momento o esqueleto e vamos para a carne: as vogais, o ritmo, o tom, tudo o que a voz diz além das consoantes.