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As palavras têm ossos

Parte III · Capítulo 11

Do pensamento ao som

O limiar

Pense em algo que você quer dizer e ainda não disse. Está ali, na sua cabeça. Não soa. Não tem letras. Talvez ainda nem tenha palavras: é uma intenção, uma imagem, uma pressa. E daqui a um segundo, se você decidir dizer, isso vai sair da sua boca como ar que vibra, com consoantes, vogais, ritmo e um tom que denuncia como você está se sentindo.

O que aconteceu nesse segundo? Algo que não soava virou som. Algo de dentro virou algo de fora, que outra pessoa pode ouvir.

A essa passagem a psicofonologia chama de limiar. Um limiar é o lugar por onde se passa de um espaço para outro, como o batente de uma porta. Não pertence de todo a nenhum dos dois cômodos. O limiar fônico é a passagem entre o pensamento e o som, e é a pergunta mais funda de toda esta parte do manual: como o pensamento consente em virar voz?

Não vou dar a você uma resposta fechada, porque não existe uma. Mas posso mostrar como essa passagem se vê de vários lados.

Quatro níveis

A endolinguística distingue quatro níveis em que a linguagem funciona por dentro. Não são quatro linguagens diferentes: são quatro profundidades da mesma.

  1. Falar. O nível do corpo que produz sons: a boca, o ar, os músculos, os padrões de movimento que você aprendeu quando era bebê. Quando você diz oi, o que acontece neste nível é uma sequência de movimentos.
  2. Dizer. O nível do sentido compartilhado: o que uma palavra quer dizer para uma comunidade, com a sua história e a sua cultura. Quando você diz oi, neste nível você está cumprimentando, com tudo o que um cumprimento significa onde você vive.
  3. Pensar. O nível do raciocínio: as relações lógicas, as estruturas que permitem combinar ideias, comparar, deduzir.
  4. Intuir. O nível mais fundo, onde algo se compreende antes de poder ser explicado: a ressonância, a intuição do que o outro quer dizer além do que ele diz. É também, segundo a endolinguística, o nível em que a linguagem toca a ética: a responsabilidade pelo que se diz.

Os códigos que você aprendeu na Parte I vivem sobretudo entre o primeiro e o segundo nível: no corpo que produz os sons e no sentido que uma comunidade dá a eles. Mas a endolinguística sustenta que a influência deles chega mais fundo, até o quarto nível, o de intuir. Isso, como quase tudo nesta parte, é uma proposta que se estuda, não um fato demonstrado.

Como uma língua passa a ser sua

Há um jeito de ver o limiar em ação: olhar como um bebê chega a falar.

Costumamos pensar que uma criança começa a falar por volta de um ano, com as primeiras palavras. Mas a linguagem começa muito antes, e começa pela música.

Isso não é poesia: está medido. As pesquisas com recém-nascidos mostram que, poucos dias depois de nascer, os bebês preferem a voz da mãe à de uma desconhecida, e preferem um texto que ouviram várias vezes antes de nascer a um que nunca ouviram. Eles também distinguem a sua língua de outras, sobretudo pelo ritmo. E há estudos que encontraram que a melodia do choro de um recém-nascido já tem algo do desenho da língua que ele ouviu dentro da barriga.

O que isso quer dizer? Que, antes de entender uma única palavra, o bebê já recebeu o ritmo da sua língua. Ouviu, através do corpo da mãe, a melodia, as pausas, as subidas e descidas. A primeira coisa que se aprende de uma língua não é o seu significado: é o seu jeito de ir no tempo. O endorritmo se forma primeiro; os códigos se cristalizam depois, dentro dele.

A psicofonologia descreve esse processo com três palavras:

Há uma coisa que vale a pena notar. A língua mais sua, a que você fala sem pensar, começou sendo a língua dos outros. Ninguém inventa a sua primeira língua. Recebe, e ao receber, torna sua.

Brincar com as palavras

Há crianças que pegam uma palavra e brincam com ela: dizem de trás para a frente, rimam com outras, colocam onde ela não cabe, inventam um segundo sentido, fazem dela uma piada ou um nome secreto. E há outras para quem cada palavra fica pregada ao seu único uso, sem poder se mexer.

A psicofonologia propõe que essa diferença — a de poder brincar com as palavras ou não — diz algo sobre como a linguagem se formou por dentro. Quando os primeiros anos são de cuidado suficiente, os códigos ficam móveis: podem ser invertidos, recombinados, deslocados. Quando não, podem ficar rígidos. É uma hipótese, e foi pensada para ser posta à prova com estudos que acompanhem crianças durante anos; não é um resultado. E não é um diagnóstico de ninguém: a endolinguagem continua se refazendo a vida inteira, e brincar com as palavras se aprende em qualquer idade.

Mas há uma coisa que você mesmo pode observar. Os trava-línguas, as rimas, o rap improvisado, os trocadilhos, os apelidos que se inventam entre amigos, essas línguas secretas que algumas crianças criam enfiando sílabas entre as sílabas: tudo isso é brincar com os códigos. É a mesma capacidade que os poetas usam. E é a mesma que você vai usar para aprender um idioma novo.

Seu segundo idioma: uma segunda apropriação

Tudo isso tem uma consequência direta para você.

Aprender um idioma novo é fazer, outra vez, o que você fez quando era bebê: pegar uma língua que chega de fora e torná-la sua. No começo, o inglês, ou o espanhol, é exolinguagem: algo que soa, que é dos outros. Com o tempo, com brincadeira e com prática, uma parte dele vira sua.

Nunca vai ser exatamente igual à sua primeira língua. O seu endorritmo do português vai continuar soando por baixo: isso é o sotaque, e não é um defeito, é uma assinatura. Mas a endolinguagem não se forma uma vez só e se fecha. Ela continua se refazendo a vida inteira, a cada relação, a cada língua, a cada grupo de amigos que empresta a você o seu jeito de falar.

Por isso as recomendações do capítulo anterior — escutar muito, imitar a melodia, fazer sombra — não são truques. São o jeito como o seu corpo aprende o ritmo de outra língua, como aprendeu o da primeira: pelo ouvido, antes do significado.

O que este capítulo não diz

Três precauções, para que nada disso seja lido além do que diz.

A língua não tem inconsciente próprio. Uma língua não é uma pessoa: não sente, não sofre, não lembra. Quem sente e lembra são as pessoas que a falam. Quando dizemos que uma língua “guarda” algo, queremos dizer que quem guarda são os corpos que a falam e a transmitem de geração em geração.

Nem todo detalhe do som significa alguma coisa. Muito do que há numa voz é cansaço, ruído, mecânica do corpo. A tarefa da psicofonologia é justamente separar o que significa do que não significa. Uma ciência que encontrasse sentido em toda parte não se distinguiria de uma que não o encontrasse em parte alguma.

Nem tudo o que está dentro pode ser lido. Há coisas da mente que nenhuma análise da voz vai recuperar. Saber onde termina o que se pode conhecer também faz parte de conhecer.

Na última parte do manual, vamos olhar de frente o maior risco de tudo o que você aprendeu: ver o que não está lá.