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As palavras têm ossos

Parte I · Capítulo 4

O código

Montar o objeto

Você já tem todas as peças. Ler uma palavra de modo endolinguístico é fazer três movimentos em sequência:

  1. Tirar o que não é raiz: terminações, prefixos, sufixos (capítulo 2).
  2. Extrair o esqueleto da raiz: suas consoantes, do jeito que soam, na ordem delas (capítulo 2).
  3. Passar para as classes: cada consoante vai para a sua região (capítulo 3).

O que sobra é uma sequência muito curta: quase sempre duas ou três classes, numa certa ordem. Isso, exatamente isso, é um código endolinguístico. Se tem duas classes, nós o chamamos de binário; se tem três, de ternário.

Pegue o padre — a palavra que em português ficou para o sacerdote e que em espanhol ainda quer dizer “pai” — e o inglês father. As letras não são as mesmas: p·d·r de um lado, f·th·r do outro. Mas cada consoante cai na mesma região que a sua correspondente na outra palavra, e as duas palavras levam o mesmo código: Φ·Θ·Λ.

Da palavra ao código: padre e father chegam ao mesmo código 1 · A PALAVRA2 · ESQUELETO3 · CÓDIGO padre father portuguêsinglês p · d · rf · th · r Φ · Θ · Λ
Duas palavras diferentes, um mesmo código.
palavraraizesqueletocódigo
padrepadr-p · d · rΦ · Θ · Λ
father (inglês)father-f · th · rΦ · Θ · Λ
paipaipΦ
terraterr-t · rΘ · Λ
cantarcant-k · tΧ · Θ

(Em pai, o i é semivogal de ditongo: é vogal, não conta. Em cantar, o n dorme na vogal nasal: também não conta.)

E o seu pai? Ficou com uma classe só, Φ. Pai e padre são a mesma palavra latina, patrem, que chegou até você por dois caminhos. Pela boca do povo, durante séculos, ela foi se gastando até sobrar só o p: o Θ e o Λ se apagaram no caminho. A outra forma, padre, guardou o osso inteiro, p·d·r. O osso também se gasta. E muitas vezes é a palavra-irmã que guarda o que a palavra de todo dia perdeu. Você vai ver isso de novo no capítulo 5.

A ideia do código é o coração da endolinguística, e vem de seus fundadores, Meulemans e Elias. Comparando dezenas de línguas, eles descobriram que certos padrões de consoantes se repetem sem parar, atravessam os séculos e as fronteiras, e reúnem ao seu redor palavras cujo sentido tem algo em comum. As classes com que escrevemos esses padrões aqui são o jeito como eu os organizo.

A ordem importa

Agora, um detalhe que parece pequeno e é a alma da coisa.

21 não é a mesma coisa que 12, embora use os mesmos algarismos. Com os códigos acontece o mesmo: Θ·Λ não é a mesma coisa que Λ·Θ. Mesmas duas classes, ordem diferente, código diferente.

Para falar disso com precisão, precisamos de duas palavras.

Quando dois códigos têm o mesmo núcleo e a ordem invertida, dizemos que um é a inversão do outro.

Uma inversão que dá para ouvir

Leia estas duas listas em voz alta, uma depois da outra.

Θ·ΛΛ·Θ
terrarotação
terrenorodar
territórioespanhol rueda (roda)
espanhol tierra (terra)inglês rotate (girar)

(Em rueda, o u é a vogal de um ditongo, então não conta: o esqueleto é r · d. Em tierra, quem é vogal é o i: t · r. E o r forte de terra e de rotação, que no Brasil soa quase como um h, continua sendo Λ, como você viu no capítulo 2.)

De um lado, palavras de chão, de assento, do que fica parado. Do outro, o mesmo par de classes invertido: palavras de giro, de volta, de movimento. As mesmas duas notas; tocadas numa ordem, soam como repouso; na outra, como marcha.

A inversão: Θ·Λ em terra e Λ·Θ em rotação compartilham um núcleo Θ · Λ Λ · Θ terraterrenoterritóriotierra (es) rotaçãorodarrueda (es)rotate (en) ficar, assentar-segirar, dar voltas {Θ, Λ} núcleo
A inversão: o mesmo núcleo em ordem contrária. Terra e rotação não são parentes: é uma leitura, não um parentesco.

Agora vem a parte honesta, e ela é tão importante quanto a bonita.

Terra e rotação não são parentes. Terra vem do latim terra, que vem de uma raiz protoindo-europeia que queria dizer “seco”. Rotação, rodar e o espanhol rueda vêm do latim rota, de outra raiz, que queria dizer “correr, rodar”. São duas histórias diferentes. Nenhum dicionário etimológico as liga.

Então, o que foi que você acabou de ouvir? Não é um parentesco: é uma leitura endolinguística. É a observação de que palavras de histórias diferentes levam o mesmo núcleo em ordem inversa, e de que seus campos de sentido — o repouso, o giro — também parecem estar em relação. A endolinguística propõe que isso não é totalmente casual: que a ordem das classes orienta o sentido. Mas isso é uma proposta, não um fato demonstrado, e precisa ser tratada assim. É uma leitura, não um parentesco.

Uma pista para o desafio. Um exemplo que não se encaixa não destrói sozinho uma proposta, mas também não dá para escondê-lo. O que decide se uma leitura vale é contar: quantas palavras a cumprem e quantas não, em muitas línguas, comparado com o que sairia por puro acaso. Dois ou três exemplos bonitos não provam nada, e um feio também não refuta nada. Por isso, neste manual, toda vez que eu mostrar uma leitura assim, vou dizer que é uma leitura. Esse hábito é a diferença entre um método e uma coleção de coincidências.

Um código não significa: orienta

Se, ao ler a tabela de terra e rotação, você pensou “então Θ·Λ significa terra”, este é o momento de frear. Esse pensamento é natural, e é a porta errada.

Um dicionário diz o que uma palavra significa. Um código não faz isso. Um código orienta: aponta uma zona — “as palavras que me levam costumam morar por aqui” — sem dizer o que há na zona.

É a diferença entre um mapa do tesouro e uma bússola. O mapa promete o baú. A bússola só jura onde fica o norte; o que houver ao norte, quem vai dizer é o terreno.

Há um exemplo que mostra isso melhor do que qualquer explicação. Olhe estas palavras:

palavralínguasentidocódigo da raizde onde vem
calorportuguês e espanholcalorΧ · Λraiz latina cal-, “estar quente”
calienteespanholquenteΧ · Λa mesma raiz cal- (+ sufixo -iente)
caldoitalianoquenteΧ · Λ · Θraiz cald-: latim calidus, da mesma raiz cal- de calor; em italiano o velho sufixo se fundiu com a raiz
gélidoespanholgeladoΧ · Λraiz gel- (+ sufixo -ido): latim gelidus, de gelu, “geada”
coldinglêsfrioΧ · Λ · Θa mesma raiz de gelu
kaltalemãofrioΧ · Λ · Θa mesma raiz de gelu

Aqui há duas famílias. Calor, caliente e caldo são de uma: a raiz latina cal-. Gélido, cold e kalt são de outra: são parentes entre si (gélido é, na verdade, o primo latino de cold), e vêm de uma raiz que queria dizer frio. As duas famílias não são aparentadas. Calor, caliente e gélido começam a raiz com o mesmo par Χ·Λ.

O par Χ·Λ aponta o eixo da temperatura: o frio e o calor frio calor Χ · Λ gélido (es)cold (en)kalt (de) calorcaldo (it)caliente (es) uma família: a raiz de “geada” outra família: “estar quente”
O italiano caldo (“quente”) e o inglês cold (“frio”) têm o mesmo código, Χ·Λ·Θ, sem ser parentes. O código não diz “quente” nem “frio”: aponta o eixo, e cada palavra vai para uma ponta.

E aqui está o mais fino: o italiano caldo, que quer dizer “quente” (não “sopa”, como no português), e o inglês cold, que quer dizer “frio”, têm exatamente o mesmo código, Χ·Λ·Θ. Vêm de duas famílias sem parentesco, e cada um está numa ponta do mesmo eixo: a temperatura. O alemão kalt, irmão de cold, também leva Χ·Λ·Θ.

Um matiz, para sermos honestos. Em latim, o d de calidus era do sufixo, não da raiz. Em italiano o sufixo se fundiu, e hoje esse d é parte da raiz cald-. Isso não fomos nós que fizemos ao separar a palavra: foi a língua sozinha.

Um detalhe sobre a sua pronúncia. Você também diz gélido, mas no seu português o g antes de e soa como j: o esqueleto da raiz fica j·l, e o código, Σ·Λ. O Χ virou Σ. No espanhol, esse g soa como uma jota raspada no fundo da boca, e o Χ continua lá. É por isso que a tabela usa a forma espanhola.

O código se contradiz, aparecendo ao mesmo tempo no quente e no frio? Só se esperávamos que ele significasse. Se entendemos que ele orienta, a aparente contradição vira informação. Esse código aponta um eixo — o da temperatura — e cada palavra percorre esse eixo até uma ponta diferente. Uma bússola que marca o eixo norte-sul não é refutada porque um viajante vai para o norte e outro para o sul.

(Isto, mais uma vez, é uma leitura. O que está documentado é que gélido, cold e kalt são parentes e que calor, caliente e caldo são de outra família. Que caldo e cold coincidam no código inteiro Χ·Λ·Θ, e as duas famílias no eixo, é a observação endolinguística.)

O uso é o árbitro

Se o código não diz o que uma palavra significa, quem diz? O uso. As frases reais em que a palavra vive, o que as pessoas de fato fazem com ela.

O código diz onde olhar; o uso diz o que se vê. Essa divisão de trabalho é a regra mais importante do método. Quem a inverte — quem decide primeiro o que um código “significa” e depois obriga as palavras a obedecer — já não está observando a língua. Está ditando para ela.

Como não ler um código

Volto à armadilha do capítulo 3, porque com os códigos ela fica ainda mais tentadora.

Pegue a palavra inglesa star, “estrela”. O código é Σ·Θ·Λ. Alguém poderia raciocinar assim: “Σ é o assobio, que dá a sensação de sair; Θ é o limite; Λ é o que flui. Então star é algo que sai, se define e flui: uma estrela!”.

Esse raciocínio está errado, e vale a pena entender por quê, porque o problema não é só que a conclusão seja duvidosa.

  1. Trata cada classe como se tivesse um significado fixo. Já vimos que não tem.
  2. Soma os pedaços, como se o código fosse uma frase feita de três palavras. Mas as classes não se somam: elas se ligam, e o resultado depende do todo e da ordem, do mesmo jeito que a água não se parece nem com o hidrogênio nem com o oxigênio.
  3. Fecha o que o código abre. Um código aponta um campo amplo; uma glosa de duas palavras o tranca numa etiqueta. Se uma leitura cabe em duas palavras, quase com certeza foi montada somando.

Qual é o jeito certo, então? Ir às palavras. Star tem parentes documentados: o latim stella, de onde vem o espanhol estrella, e o alemão Stern. (E a sua estrela? Parece muito com estrella. Confira num dicionário com etimologia antes de dar por certo.) O que essas palavras compartilham, e o que as pessoas fazem com elas em frases reais, é o que diz qual campo esse código orienta. O sentido se lê nas relações entre as palavras, não nas peças do código.

Resumo da Parte I

Com isso, você tem o instrumento completo. Vamos recapitular:

Na Parte II, você vai usar tudo isso para o que eu prometi no começo: aprender idiomas. E a primeira coisa que você precisa saber é quem são, de verdade, os seus parentes.