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As palavras têm ossos

Parte II · Capítulo 7

Mapas de bolso

Este capítulo não é para ler de uma vez. É uma caixa de ferramentas: um mapa curto para cada idioma que você provavelmente vai querer aprender. Vá direto ao que serve para você, e volte quando começar outro.

Cada mapa tem quatro partes: a que distância esse idioma está do português, as regras que mais rendem, uma armadilha e uma dica de pronúncia.

A que distância está cada idioma?

Antes dos mapas, um dado que ajuda você a calibrar o que espera você. Os linguistas reuniram, para muitas línguas, como se dizem uns 170 conceitos básicos: coisas como mão, água, dormir, vermelho, noite. São palavras que toda língua tem e que se emprestam pouco. Com essa lista dá para medir que porcentagem dessas palavras básicas são coderivados entre duas línguas: a mesma palavra herdada, com outro sotaque.

Estes são os números para o português, calculados sobre uma base de dados de especialistas chamada IE-CoR:

Vocabulário básico que cada idioma compartilha com o português por herança0%25%50%75%100%espanhol84%catalão78%italiano73%francês71%romeno59%alemão24%russo22%inglês20%
Porcentagem de uns 170 conceitos básicos expressos com a mesma palavra herdada. Fonte: base de dados IE-CoR.
Ver como tabela
idiomavocabulário básico que compartilha com o português por herança
espanhol84%
catalão78%
italiano73%
francês71%
romeno59%
alemão24%
russo22%
inglês20%

Ler bem esta tabela poupa você de muitas frustrações. Com o espanhol, mais de quatro em cada cinco palavras básicas são suas com outro sotaque: a sua tarefa é aprender as regras do sotaque. Com o inglês, só uma em cada cinco. Quer dizer que o inglês está perdido? Não. Quer dizer duas coisas.

A primeira: no vocabulário básico do inglês você vai ter que memorizar mais, e a lei de Grimm serve para essa quinta parte que é herança de verdade. A segunda: esta tabela só mede palavras básicas herdadas. Não conta as milhares de palavras cultas que o inglês tomou do latim e do francês, que são justamente as que você viu no capítulo 5. No vocabulário culto, o inglês está muito mais perto de você do que diz esse 20%.

Mapa do inglês

Distância: distante no vocabulário básico (20%), próximo no vocabulário culto.

Regras que mais rendem:

  1. A lei de Grimm (capítulo 6), para o fundo germânico: p→f (padre/father, peixe/fish, pé/foot), d→t (dente/tooth, dez/ten), k→h (coração/heart, corno/horn), t→th (três/three), g→k (gélido/cold). É ela que abre para você o vocabulário básico.
  2. A camada culta (capítulo 5): se uma palavra inglesa comprida se parece com uma palavra sua, provavelmente são primas. Muitas vezes é o contrário do que você espera: as palavras chiques do inglês são as suas palavras de todo dia. Paternal é de pai, nocturnal é de noite, dental é de dente, ocular é de olho, filial é de filho, ferrous é de ferro.
  3. Terminações que viajam em bloco. O -tion inglês é o seu -ção (nation/nação). O -ty é o seu -dade (university/universidade). O -ous é o seu -oso (famous/famoso).
  4. Ponha um e na frente. Onde o inglês começa com s + consoante, o português costuma pôr um e- antes: school/escola, state/estado, student/estudante.
  5. Letras de enfeite. O ph inglês é o seu f (philosophy/filosofia), e o th das palavras cultas costuma ser o seu t (theater/teatro).
  6. Procure o latim atrás da sua palavra herdada. Se filho não leva você a nada em inglês, tente o parente culto: filial. Se noite não leva você a nada, pense em noturno.

Armadilha: os falsos amigos do tipo 1, parentes que mudaram de profissão (capítulo 5). Push e puxar vêm os dois do latim pulsāre, mas push quer dizer empurrar: o contrário! Exquisite é requintado, não esquisito. Parents são pai e mãe, não parentes. Library é biblioteca, não livraria. Actually é “na verdade”, não atualmente. E os do tipo 2, que nem parentes são: fire não vem de fogo, nem much de muito, nem day de dia.

Pronúncia: o inglês escreve muitas letras que não soam (know, knight, walk) e muda muito de um país para outro. Escolha um sotaque de referência — o americano ou o britânico — e tire seus esqueletos desse sotaque. Lembre que no britânico muitos r finais não soam: mother tem esqueleto m · th. E quatro coisas pedem treino especial. O th, que você não tem. O h de house e hair, que se pronuncia de verdade: ele soa quase como o seu rr de carro, então use isso. A diferença entre vogais longas e curtas (sheep, ovelha; ship, navio). E as consoantes finais, que terminam secas: club é club, não “clubi”; milk é milk, não “milki”.

Mapa do espanhol

Distância: o mais próximo de todos (84%).

O espanhol é o seu espelho. As regras do capítulo 6, que você aprendeu olhando a sua língua, aqui se leem ao contrário.

Regras que mais rendem:

  1. O seu f é o h mudo dele. O português guardou o f que o espanhol perdeu: filho/hijo, ferro/hierro, fazer/hacer, farinha/harina, fio/hilo, folha/hoja, forno/horno.
  2. O seu ch é o ll dele, quando vem de cl, pl, fl latinos: chave/llave, chuva/lluvia, chama/llama, chamar/llamar, cheio/lleno.
  3. O seu it é o ch dele, quando vem de ct latino: noite/noche, oito/ocho, leite/leche.
  4. O l e o n que você perdeu, o espanhol guardou. Entre vogais, o português deixou cair muitos l e n; o espanhol não: lua/luna, voar/volar, cor/color, dor/dolor, sair/salir.
  5. Ditongos a mais. Onde você tem o ou e, o espanhol muitas vezes tem ue ou ie: novo/nuevo, neve/nieve.
  6. O seu -ção é o -ción dele: canção/canción, nação/nación.

Armadilha: exquisito em espanhol quer dizer delicioso, requintado. O seu esquisito quer dizer estranho. É a mesma palavra latina, que em cada língua acabou num emprego diferente: dois parentes que viraram falsos amigos entre si. Um falso amigo sempre depende do par. E cuidado com embarazada: quer dizer grávida.

Pronúncia: o difícil do espanhol não é entender, é não falar “portunhol”. A jota (hijo, jirafa) se faz no fundo da garganta, parecida com o seu rr de carro. Não há vogais nasais: em canción e em son, o n soa inteiro, acordado. O t e o d diante de i continuam t e d: tío não é “tchío”, día não é “djía”. O l no fim da sílaba é l de verdade: sal não é “sau”. O ll e o y mudam muito de país para país. O z e o c (antes de e, i) soam como s na América e como o th inglês em boa parte da Espanha. Escolha um sotaque e fique com ele.

Mapa do francês

Distância: próximo no papel (71%), mais longe no ouvido.

Regras que mais rendem:

  1. O seu ca é o cha ou che dele: cantar/chanter, campo/champ, cavalo/cheval, cabra/chèvre, casa/chez.
  2. O f está dos dois lados: fazer/faire, filho/fils, ferro/fer, farinha/farine.
  3. O it também é dele, quando vem de ct latino: noite/nuit, oito/huit, leite/lait.
  4. Os grupos cl, pl, fl se conservam, onde você tem ch: chave/clé, chuva/pluie, chama/flamme, cheio/plein.
  5. O chapéu esconde um s. Muitas palavras francesas perderam um s que você ainda tem, e o francês costuma marcar essa perda com um acento circunflexo: festa/fête, hospital/hôpital. O é- do começo às vezes marca a mesma perda: escola/école, estado/état. Quando vir um circunflexo, tente pôr um s depois da vogal.

Armadilha: o francês escreve muitas consoantes que já não pronuncia, sobretudo no final. Se você tirar o esqueleto da escrita, ele vai sair mais comprido que o da boca. Front se escreve com cinco letras e se diz frõ: o esqueleto é f · r. Lembre a regra do capítulo 2: manda o som.

Pronúncia: boa notícia primeiro: o francês tem vogais nasais, e essas você já tem. Isso é uma vantagem real sobre quem fala espanhol. O novo são as vogais arredondadas (o u de lune, o eu de feu) e um r feito no fundo da garganta. Escute muito antes de falar.

Mapa do italiano

Distância: muito próximo (73%).

Regras que mais rendem:

  1. O f está dos dois lados: fazer/fare, filho/figlio, farinha/farina.
  2. O seu ch é o chi, pi ou fi dele: chave/chiave, chamar/chiamare, cheio/pieno, chama/fiamma.
  3. O seu it é o tt dele, quando vem de ct: noite/notte, oito/otto, leite/latte.
  4. Consoantes dobradas. O italiano pronuncia dobradas muitas consoantes (notte, latte, fiamma). Ao tirar o esqueleto, conte cada consoante dobrada uma vez só.

Armadilha: burro em italiano é manteiga. Caldo quer dizer quente, não sopa (e aqui está de novo a bússola do capítulo 4: o mesmo código do inglês cold, Χ·Λ·Θ, do lado do calor). Salire é subir, não sair.

Pronúncia: o italiano tem vogais claras e um ritmo próximo do seu. O novo são as consoantes dobradas, que se seguram um instante a mais: pala (pá) não é palla (bola). Treine-as desde o começo.

Mapa do alemão

Distância: distante a partir do português (24%), mas muito próximo a partir do inglês (56% do vocabulário básico compartilhado). Se você já sabe um pouco de inglês, use-o como ponte.

Regras que mais rendem:

  1. A partir do português, a lei de Grimm, igual ao inglês: padre/Vater, pé/Fuß, peixe/Fisch, cheio/voll, três/drei, cão/Hund, gélido/kalt.
  2. A partir do inglês, a segunda mudança (capítulo 6): ten/zehn, two/zwei, water/Wasser, heart/Herz, tongue/Zunge, apple/Apfel, pepper/Pfeffer, make/machen, book/Buch, bread/Brot.
  3. O v alemão soa f: Vater é “fáter”. E o w soa v: Wasser é “vásser”. O h se pronuncia. Tire o esqueleto do som.

Armadilha: Gift em alemão é veneno, não presente (embora seja parente, sim, do inglês gift). Rat é conselho, não rato.

Pronúncia: o alemão tem o ch suave de ich e o ch áspero de Buch, as vogais com trema (ü, ö, ä) e um jeito muito marcado de separar as palavras. É um idioma que se entende melhor quando você lê em voz alta do que quando lê calado.