Pular para o texto
As palavras têm ossos

Parte I · Capítulo 3

Sete regiões da boca

Um país pequeno

Este capítulo se lê em voz alta. Se você estiver num lugar onde não pode fazer barulho, deixe para depois.

Diga devagar, um depois do outro: p, b, f, v. Repare onde eles acontecem. Os quatro acontecem no mesmo lugar: os lábios. No p e no b, os lábios se fecham e se abrem de uma vez; no f e no v, o lábio de baixo encosta nos dentes de cima e o ar escapa. São sons diferentes, mas moram na mesma região.

Agora diga t, d. A ponta da língua toca atrás dos dentes de cima. Se você sabe dizer o th do inglês (think, that), ele também mora aqui: a língua entre os dentes.

Diga k, e o g de gato. Isso acontece lá no fundo, onde a língua se levanta contra a parte mole do céu da boca, perto da garganta. Se você sabe dizer a jota do espanhol (jamón) ou o h inglês de house, soprado da garganta, eles moram aqui também.

Diga s, segurando: sssss. E ch, como quando pede silêncio: chhhh. E o j de já, que é o mesmo chiado, só que com voz. E agora o t de tia, do jeito que se fala na maior parte do Brasil: “tchia”. Ele começa como um t e termina chiando. São assobios e chiados: o ar sai apertado e faz barulho.

Diga l, depois o r de caro, depois o r de rato. A língua não tapa a passagem do ar: deixa o ar escorrer pelos lados, ou dá um toque rápido. O ar flui. O seu r forte, em quase todo o Brasil, é feito lá no fundo da garganta, e não com a ponta da língua como o r de caro. Mesmo assim, ele mora aqui, com o l. É que esta região não se define pelo lugar exato: é a região do que flui. O seu r forte faz na palavra o mesmo trabalho que o r de caro, o r vibrado do espanhol ou o r do inglês, e pertence à mesma classe. É uma decisão, e eu a declaro: é um caso que vale a pena continuar olhando.

Diga mmmm com a boca fechada. Você sente o zumbido nos lábios e no nariz.

E diga nnnn. Também zumbe pelo nariz, mas agora a boca está aberta e a língua em cima. O nh de vinho zumbe do mesmo jeito.

Você acabou de atravessar um país pequeno que tem sete regiões. Todas as consoantes que você usa — e quase todas as dos idiomas que você vai aprender — moram em alguma delas.

Corte de perfil da cabeça com as sete regiões da boca Φ Θ Σ Λ Χ Ϻ Ξ lábios dentes chiado língua o fundo o ar pelo nariz
As sete regiões, num corte de perfil. Φ lábios · Θ dentes · Σ o chiado, logo atrás dos dentes · Λ a língua deixa o ar fluir · Χ o fundo · Ϻ e Ξ zumbem pelo nariz (Ϻ com os lábios fechados, Ξ com a língua para cima).

As sete classes

A endolinguística chama essas regiões de classes, e dá a cada uma um símbolo grego. Aqui está o mapa completo:

símbolose lêregiãoconsoantes que moram ali
Φfios lábiosp, b, f, v; o w inglês no início da sílaba
Θtetaos dentest, d; o th inglês
Χquio fundok, g (gato); o h inglês e alemão; a jota espanhola
Σsigmao chiado e o assobios, z, ch (chuva), x (xícara), j (já), g (gente); o tch e o dj do Brasil (tia, dia); o sh, o ch e o j do inglês; o ch do espanhol
Λlambdao que fluil, lh, r (o fraco, o forte, o caipira)
Ϻsano zumbido fechadom
Ξcsi (“ksi”)o zumbido aberton, nh; o ñ espanhol; o ng inglês

Este é o quadro que você mais vai usar no manual inteiro. Ele está repetido no anexo A, para você ter sempre à mão.

Uma letra é um disfarce; a família é a pessoa

Aqui está a primeira ideia técnica importante, e também a mais libertadora.

Quando você compara padre com father, a primeira letra é diferente: p num caso, f no outro. Se você compara letras, são palavras diferentes. Mas as duas consoantes moram na mesma região, a dos lábios. Se você compara classes, as duas palavras começam igual: com Φ.

palavraesqueletoclasses
fatherf · th · rΦ · Θ · Λ
Vaterf · t · rΦ · Θ · Λ
paterp · t · rΦ · Θ · Λ
padrep · d · rΦ · Θ · Λ
paipΦ

O que na tabela de letras eram quatro palavras diferentes, na tabela de classes é uma única sequência, repetida quatro vezes. O p e o f são disfarces diferentes da mesma pessoa. Por isso o parentesco entre padre e father é invisível para quem compara letras, e evidente para quem compara classes. E pai? Gastou-se no caminho até ficar só com a primeira classe, Φ. Mas é a mesma, no mesmo lugar.

E por que símbolos gregos, e não simplesmente as letras P, T, K? Porque as letras pertencem a cada língua. O nh é do português; o th é do inglês. Se escrevêssemos a classe dos lábios com um P, cedo ou tarde alguém pensaria que o f de father é um p mal pronunciado, e isso é falso. As classes não são letras de nenhuma língua. Merecem um nome que não seja de ninguém.

Três regras finas

Quase sempre, classificar é imediato. Mas há três casos que confundem no começo.

1. O assobio é só o assobio. O f também faz barulho de ar, e a jota espanhola também, e o th inglês também. Mas nem o f, nem a jota, nem o th são Σ. Por quê? Porque a classe se decide pela região onde o som nasce, não pelo barulho de ar que ele faz. O f nasce nos lábios: é Φ. A jota nasce no fundo: é Χ. O th nasce nos dentes: é Θ. Em Σ só entram os verdadeiros assobios e chiados: s, z, ch, j. (O r é o único caso em que o lugar exato não decide, e você já sabe por quê: a classe dele é a do que flui.)

2. Os sons de passagem se leem pelo final. O seu ch de chuva é um chiado simples. Mas o t de tia, no Brasil, não é: diga bem devagar e você vai notar que ele começa como um t e termina chiando, t-ch. O d de dia faz a mesma coisa: d-j. O ch do inglês church e do espanhol chile, e o j do inglês judge, são sons do mesmo tipo. São sons de passagem. A regra é lê-los pelo lugar onde terminam: são Σ. Por isso, no Brasil, o t de tia é Σ; em Portugal, onde ele continua sendo um t, é Θ. O sotaque muda o esqueleto, e com ele a classe.

3. A fronteira do ll e do y. No capítulo anterior eu pedi que você marcasse entre parênteses o ll e o y do espanhol (llave, yo). O motivo é que esse som fica exatamente no limite entre vogal e consoante: em algumas bocas soa quase como um i, em outras quase como o j de já. Quando o estudamos com cuidado, vimos que forçá-lo numa classe introduzia erros em todo o resto. Então, por enquanto, ele fica como caso limite: anota-se, vê-se, e não se classifica à força. (Já o i do seu pai é outra história: dentro do ditongo ele é vogal, e ponto.) É uma boa lição de método. Quando algo não se encaixa, é melhor deixá-lo marcado do que esconder a dúvida.

O que uma classe é

Até agora eu apresentei as classes como regiões da boca, e esse é o jeito certo de começar. Mas não é a história toda, e eu devo o resto a você.

As sete classes se chamam OAS, pela sigla em inglês: Originating Affective Sounds, sons afetivos originários. O nome diz algo importante. Uma classe não é um som. É a sensação que certos sons produzem em quem os diz e em quem os ouve. Essa sensação está ancorada no corpo — na região da boca onde o som é feito —, mas não é a mesma coisa que o som.

Você mesmo pode notar. Diga mmm com a boca fechada: há algo de dentro, de fechamento, de ficar. Diga pá!: algo sai, algo se abre de uma vez. Diga t: algo para de repente. Diga sss: algo escapa, contínuo. Diga lll: algo corre, desliza. Diga k com força: algo se junta lá atrás e empurra. Diga nnn: algo ressoa por dentro.

Cada classe tem algo como um caráter. A endolinguística o estuda com cuidado. E é justamente por isso que eu preciso colocar agora o aviso mais importante de toda a Parte I.

Esse aviso existe porque a tentação é enorme. Parece natural pensar: “se o m dá sensação de fechamento e o t de limite, então uma palavra com m e t significa ‘fechamento com limite’”. Esse raciocínio se chama somar classes, e é proibido neste método. Não por capricho, mas porque não funciona: produz significados inventados que parecem profundos e não resistem a nenhuma prova. Quem transforma as sensações dos sons em significados de palavras já não está fazendo endolinguística. Está fazendo outra coisa, parecida com a numerologia.

Então, para que servem as classes? Servem para ver: para reconhecer que padre e father são a mesma sequência debaixo de dois disfarces. E servem como peças de algo maior. O sentido, quando aparece, não aparece nas classes soltas. Aparece quando as classes se combinam numa ordem e essa combinação se repete em muitas palavras de muitas línguas. A essa combinação chamamos código, e ele é o tema do próximo capítulo.

Uma classe é de uma família de línguas

Uma última precisão. As sete classes deste capítulo são as que eu propus para a nossa família de línguas, a indo-europeia. As bocas do mundo inteiro têm os mesmos lábios, os mesmos dentes e o mesmo fundo, então as regiões físicas são as mesmas em toda parte. Mas a sensação que um grupo de sons produz, e o jeito como os sons se agrupam entre si, pode mudar de uma família de línguas para outra. Um som que na nossa família se sente como força pode ser sentido de outro modo em outra família. Por isso as classes não se transportam sem mais nem menos para línguas de outras famílias, como o náhuatl, o árabe ou o japonês. Vamos voltar a isso no capítulo 9.