Parte I · Capítulo 2
O osso e a carne
Dois tipos de som
Toda palavra é feita de dois tipos de som, e vale a pena sentir a diferença na boca antes de explicá-la.
Diga aaaa. Você pode segurar esse som enquanto durar o ar. A boca está aberta, o ar sai livre e a voz soa. Isso é uma vogal.
Agora diga p. Não dá para segurar: é um instante. Você fechou os lábios, o ar se juntou atrás e saiu de uma vez. Diga t: a ponta da língua tapou a passagem contra os dentes e soltou. Diga s: você não tapou nada, mas apertou a passagem até o ar assobiar. Isso são consoantes. Uma consoante é algo que você faz com o ar: você o corta, aperta, desvia pelo nariz.
Por isso as consoantes se parecem com um contorno, e as vogais, com uma cor. A consoante marca uma borda; a vogal preenche o espaço entre as bordas. Na Parte III vamos voltar a essa imagem, porque ela é mais profunda do que parece. Por enquanto, ficamos com as bordas.
Por que o osso dura mais que a carne
Uma palavra é como um corpo: tem carne e tem osso. As vogais são a carne. São moles, mudam de uma região para outra, de um bairro para outro, de uma geração para outra, e quase ninguém percebe. As consoantes são o osso. Também mudam — nada numa língua é eterno —, mas mudam mais devagar e, sobretudo, mudam com regras.
Há muitas provas disso, e você já conhece algumas.
- O seu celular. Você já viu no capítulo anterior: vc, tb, blz. Você tira vogais, nunca consoantes. E repare no kd: você não copiou as letras de cadê, anotou o que ouve. Você já tirava o esqueleto do som sem saber.
- Os sotaques do inglês. A palavra tomato se pronuncia mais ou menos “toméito” nos Estados Unidos e “tomáto” na Inglaterra. As vogais mudam. O t, o m e o outro t ficam onde estão.
- As escritas semíticas. O árabe e o hebraico são escritos, há milhares de anos, anotando sobretudo as consoantes. As vogais entram como sinaizinhos opcionais, ou nem entram. Quem sabe a língua adivinha. Culturas inteiras apostaram que o osso basta.
Tirar o esqueleto: o osso se tira do som
Ao conjunto das consoantes de uma palavra, na ordem em que aparecem, vamos chamar de esqueleto. Nós o escrevemos com pontinhos entre as consoantes, para mostrar que são peças separadas:
| palavra | esqueleto |
|---|---|
| padre | p · d · r |
| casa | k · z |
| caminho | k · m · nh |
Parece fácil, e quase sempre é. Mas há uma regra que muda tudo, e que é preciso ter clara desde o primeiro dia:
O esqueleto se tira do som, não das letras.
A ortografia é uma invenção recente, cheia de caprichos e de restos históricos. A boca é muito mais velha. Quando a ortografia e a boca não coincidem, quem manda é a boca. E o português do Brasil esconde muitos sons atrás das letras. É justamente por isso que ele é um ótimo campo de treino. Vejamos as armadilhas.
- O h não soa. Hoje, homem: o h está escrito, mas não se pronuncia. Não conta. Hoje → j. (O espanhol também tem um h mudo, e em muitas palavras ele fica justo onde o português tem um f: hijo, filho. No capítulo 6 você vai descobrir por quê, e é uma das histórias mais bonitas do manual.)
- O m e o n que dormem na vogal. Em bom, você não ouve um m: ouve uma vogal nasal, que soa pelo nariz. O m só colore a vogal; não é consoante. Bom → b. Campo → k · p. Mas quando a nasal fica entre vogais, ela acorda e soa de verdade: cama → k · m.
- Um som, várias letras. O som k se escreve c (casa), qu (quero) ou k (kiwi). É sempre k. O som de chuva se escreve ch ou x (xícara). O som de jeito se escreve j ou g (gente). O som s se escreve s (sapo), ss (passo), ç (caça) ou c (cedo).
- Uma letra, vários sons. O s de sapo soa s, mas o de casa soa z: casa → k · z. O c soa k em casa e s em cedo. E o x é o campeão: soa ch em xícara, z em exame (z · m) e ks em fixo — aqui são duas consoantes: f · k · s.
- Letras duplas, um som só. O ss de passo e o rr de terra são uma consoante só. Conta uma vez. O mesmo vale para o lh e o nh, que parecem duas letras e são um som só cada: trabalho → t · r · b · lh, vinho → v · nh.
- t e d antes do som i. Diga tia e dia. Na maior parte do Brasil, o t vira um tch e o d vira um dj: “tchia”, “djia”. E isso acontece também com o e final que soa i: ponte soa “pontchi”. No esqueleto, anotamos o que se ouve: tia → tch, dia → dj, ponte → p · tch.
- O l no fim da sílaba vira u. Diga Brasil e mal. Na maior parte do Brasil, esse l soa como um u: “Brasiu”, “mau”. E um u é vogal: não conta. Brasil → b · r · z, mal → m, almofada → m · f · d.
- Os dois r. O r fraco de caro é um toque rápido da língua. O r forte de rato, de carro e de muitos r finais soa, em quase todo o Brasil, como um h aspirado, lá no fundo da garganta; em partes do interior, soa com a língua dobrada para trás (o r “caipira”). Seja qual for, no esqueleto ele continua sendo um r: caro → k · r. No capítulo 3 eu explico por que essa é uma decisão, e por que a tomamos.
- As semivogais dos ditongos. Em pai, noite, oito ou muito, o i e o u formam um ditongo com a vogal do lado. Soam um pouco como um y ou um w, mas continuam sendo vogais. Não contam. Pai → p, noite → n · tch, oito → t, muito → m · t.
Seu esqueleto depende do seu sotaque
Isto merece um momento, porque é mais importante do que parece. Se o esqueleto se tira do som, e o som depende de onde você fala, então uma mesma palavra pode ter esqueletos diferentes conforme quem a diz.
Não é um problema do método. É um dado. Ele diz algo real sobre a língua: que ela não é um objeto parado, mas um rio com muitos braços. Neste manual você vai encontrar várias vezes esse tipo de diferença, e cada vez ela vai ensinar alguma coisa.
O português está cheio delas. Compare o Brasil com Portugal. Em Portugal, o t e o d antes de i continuam sendo t e d, sem virar tch e dj. E o l no fim da sílaba soa mesmo como l, não como u.
| palavra | no Brasil | em Portugal |
|---|---|---|
| tarde | t · r · dj | t · r · d |
| dente | d · tch | d · t |
| Brasil | b · r · z | b · r · z · l |
| mal | m | m · l |
A mesma palavra, escrita do mesmo jeito, com dois esqueletos. Leite e sal fazem a mesma coisa: você vai decidir as duas, nos dois sotaques, no exercício do fim da seção.
O inglês também está cheio dessas diferenças. Veja estas três palavras:
| palavra | como soa | esqueleto |
|---|---|---|
| know (saber) | “nôu” | n |
| mother (mãe), na Inglaterra | “mâdhe” | m · th |
| mother (mãe), nos Estados Unidos | “mâdher” | m · th · r |
O k de know está escrito, mas não soa. Há mil anos soava: em inglês antigo a palavra era cnāwan, e o c se pronunciava k. A ortografia guardou a letra como um fóssil, mas a boca a deixou cair. E o r final de mother soa em quase todos os Estados Unidos e não soa em boa parte da Inglaterra. Se você aprende inglês com sotaque americano, o seu esqueleto de mother tem três consoantes; com sotaque britânico, tem duas. (O th de mother não é um d, embora muito brasileiro diga “móder”: é um som à parte, feito com a língua entre os dentes.)
O osso central: a raiz
Falta uma última coisa para aprender neste capítulo, e é a que você mais vai usar.
Muitas palavras são feitas de peças. Cantar, canto, cantor, canção: as quatro compartilham uma peça, cant-, que leva o sentido. O resto são terminações que dizem se é verbo ou substantivo, quem faz a ação. À peça que leva o sentido chamamos raiz, e às peças que se grudam nela, afixos: os que vêm antes são prefixos (re-, des-, in-), os que vêm depois são sufixos (-ção, -mente, -ar, -eiro).
Para o trabalho com códigos, o que importa é o esqueleto da raiz. Se você tirar o esqueleto da palavra inteira, as terminações colocam consoantes que não são do osso central: o r de cantar é do infinitivo, não da raiz; o r de cantor é do sufixo -or.
| palavra | esqueleto completo | raiz | esqueleto da raiz |
|---|---|---|---|
| cantar | k · t · r | cant- | k · t |
| cantor | k · t · r | cant- | k · t |
| canção | k · s | canç- | k · s |
| encantar | k · t · r | -cant- | k · t |
Repare em duas coisas. Primeiro, o n de cant- dorme na vogal nasal: a raiz só tem duas consoantes que se ouvem. (E se você diz “cantá”, como muita gente no Brasil, o r do infinitivo nem aparece: mais um motivo para tirá-lo.) Segundo, em canção, no lugar do t de cant-, você ouve um s. Isso também tem história, mas você não precisa dela agora.
Como saber qual é a raiz? Quase sempre basta o bom senso: procure outras palavras da mesma família e veja que peça elas compartilham. Quando não tiver certeza, um dicionário que traga a etimologia diz para você. O Wikcionário (pt.wiktionary.org), gratuito, indica de onde vem cada palavra; dicionários com etimologia, como o Houaiss, também.
O que o esqueleto não é
O esqueleto é uma ferramenta, não uma descoberta sobre a palavra. Somos nós que o tiramos, para poder comparar. É como a radiografia: mostra o osso com uma clareza que a foto comum não tem, mas ninguém confunde uma pessoa com a radiografia dela. A música da palavra, o seu tom, a sua vida social, o que você sente ao dizê-la ficam de fora. Vamos recuperá-los na Parte III.
No próximo capítulo vamos dar um passo mais para dentro, literalmente: para o interior da sua boca. Você vai descobrir que todas essas consoantes, que parecem tantas, vivem em apenas sete regiões.